terça-feira, 10 de julho de 2012

O efeito bicho

Cachorro, coelho e até chinchila viram terapia para pacientes de todas as idades

Leia tambémQuando não estão no hospital, Bonifácia, Nina e Fifi são médicas estabanadas. A primeira está ligeiramente acima do peso, tem um andar rebolado e costuma esbarrar em quem está próximo. A segunda adora correr e jogar futebol e não para nem quando sua companhia demonstra exaustão. A terceira não pode escutar o barulho de ônibus que perde o controle: chora e corre de um lado para outro. São comportamentos que desaparecem quando elas chegam ao ambiente de trabalho e transformam-se em profissionais de sucesso, capazes de melhorar a vida dos pacientes e até mesmo de seus colegas médicos.
a seguir, como esses animais especiais trazem para a prática médica o efeito bicho. A terapia com animais já é estudada pela ciência e não só promove felicidade em locais marcados pela falta de esperança, como é um poderoso antídoto contra depressão, pressão alta e medo de injeção (para as crianças e adultos). Até tornarem-se “médicos”, os animais precisaram passar por um processo seletivo criterioso, elaborado por Hannelore Fuchs, uma psicóloga e veterinária que há 13 anos teve a ideia de levar os bichos para dentro dos hospitais.Os seres descritos acima não são humanos. São cadelas que fazem parte de um programa de terapia com animais. Com elas trabalham Roy (um porquinho da Índia), Lili (uma coelha que pensa que é um cachorro), Viúvo (um peixe que acaba de perder a esposa, mas não está depressivo), Fidel (uma chinchila que aceita cafuné sem fugir) e Frida (uma gata que pede carinho sem ser carente).

Foto: Eduardo Cesar / Fotoarena
Elvira e Hannelore com Lili e Roy: melhora no tratamento com o uso da pet terapia
O “vestibular”
Mesmo que um jovem adore pessoas e goste de Biologia, ele certamente não poderá ser médico caso não consiga conviver com sangue. Hannelore Fuchs tinha essa filosofia em mente ao pensar em um projeto para transformar animais em terapeutas. Não bastaria um cachorro ser brincalhão e um dono deste mesmo cão gostar de bichos para ambos ingressarem no programa que ela queria fazer virar realidade. “Era preciso mais”, lembra. Foram anos pesquisando para chegar ao check-list seletivo e alguns detalhes eram elucidados aos poucos.
“Um cão que pula muito podia machucar involuntariamente alguém já fragilizado por uma doença, por exemplo. Tínhamos de testar as sensibilidades deles ao toque, ao barulho, ao susto, aos cheiros, aos medos e a tantas outras coisas”, lembra a idealizadora.
Em 1997 – com ajuda da assistente social Elvira Rebolo (a Bia, braço direito e esquerdo de Hannelore) – aconteceu a primeira experiência empírica do programa batizado de Pet Smile.
“Por nossa conta e risco, fomos a uma escola frequentada por crianças com paralisia cerebral e outros transtornos”, conta. Em três horas, a experiência foi feita em uma sala cheia de crianças especiais, que tiveram contato e brincaram com uma cadela poodle. Hannelore e Bia não conseguiram soltar a respiração com medo de que alguma coisa desse errado. Mas o sucesso foi absoluto, sentido pelos estudantes, professores e pais que falaram ter ficado mais fácil, depois, estimular as crianças para programas educacionais, fisioterapia e psicologia.
As duas decidiram que, para continuar o trabalho, além de um processo seletivo, era preciso criar um modelo com apoio de humanos voluntários. Cada um deles poderia levar o seu pet, e a dupla passaria por um período de adaptação in loco para que bicho e dono tivessem o comportamento avaliado. Começou então a “faculdade” dos animais.
Estágio
Ficou definido que antes de ingressar de forma definitiva no PetSmile, os homens e mulheres interessados têm de ir aos hospitais e casas de saúde sozinhos, sem a companhia de seus pets. Depois são os bichos que passam pelo “estágio”. Se aprovados, entram para o projeto, e toda quarta e sábado passam a fazer as visitas médicas.
“As visitas são sempre monitoradas por veterinários e psicólogos. Não há um segundo de descuido. O ingresso é uma seleção, mas a avaliação é diária.”
Aos poucos, a “equipe” atual de medicina animal começou a ser formada. Mas, para mudar a vida dos pacientes como faz hoje, o Pet Smile primeiro precisou mudar a trajetória das doutoras cachorras Fifi, Bonifácia e Nina.
Só as cachorras
Fifi, uma vira-lata de vida sofrida até mais ou menos seis meses de idade, foi encontrada escondida em um arbusto do Morumbi, bairro abastado da zona sul paulistana, com cicatrizes que indicavam muitos maus-tratos. A suspeita é de que ela apanhava ao som de ônibus e caminhões, pois até hoje essa sinfonia urbana faz a cadelinha tremer.
O histórico complicado fez com que a mulher que a acolheu, Stella Kochen Susskind, duvidasse da carreira na área da saúde quando essa possibilidade apareceu na vida de Fifi. Stella já conhecia o PetSmile, “os olhos cheios de caridade” da cachorra indicavam que ela podia ser um dos membros, mas ela não tinha noção de como o animal reagiria caso o toque ou comportamento de algum paciente despertasse uma destas memórias de maus-tratos . A “mãe adotiva”, no entanto, resolveu investir no projeto.
As surras foram substituídas por carinhos e um tratamento veterinário curou as doenças venéreas e também o problema renal da cachorra. Foi o primeiro passo para a cadela tornar-se a “geriatra” eficiente que é hoje, aos 5 anos, uma das especialistas no que a veterinária Hannelore chama de efeito bicho.
Clínica geral
O início da carreira de Bonifácia foi muito parecido com o de Fifi. Boni (como é conhecida) apareceu bem pequena na porta de um consultório veterinário em Pinheiros, zona oeste da capital paulista. Estava desnutrida, sem forças nem para abrir os olhos. De magricela, tornou-se gulosa. Ainda assim, Boni é capaz de passar horas sem comer nada, só para ajudar em hospitais e unidades de saúde, missão que cumpre há 9 anos. Por esse trabalho no posto de uma espécie de “clínica geral”, ela demonstra tanto prazer – medido pelas abanadas de rabo – quanto tem pela comida.
Especialista em UTI
Nina também é boa de garfo e entre seus sabores prediletos está o queijo cottage. Seu paladar mais refinado e o fato de ter nascido em melhores condições – desde sempre mora em uma ampla casa na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo – não fazem desta Golden Retriever uma cachorra menos bondosa do que suas colegas sem pedigree.
O porte mais avantajado e o instinto brincalhão exigem da cadela um controle minucioso de cada movimento quando cuida de pessoas que não saem de leitos hospitalares. Para descobrir este talento de “profissional especializada em medicina intensiva”, Nina precisou de um único dia de treinamento.
Pequeninos
Para fazer a terapia dar certo, as cachorras precisam atuar em conjunto com bichinhos pequeninos. É fato que os cães são os animais que mais chamam atenção quando chegam aos hospitais, mas não necessariamente os que mais funcionam na conexão entre paciente e bicho.
“Por vezes, uma criança deitada em um leito não consegue ver o animal. Os pequeninos são manuseados de maneira mais fácil e promovem uma conexão melhor com o paciente”, explica a assistente do Pet Smile Bia.
É aí que entra em cena o Viúvo. O peixe – ele anda dentro do aquário mesmo – é mostrado aos pacientes, e as voluntárias perguntam se eles gostariam de receber a visita de outros animais. Chegam depois o porquinho da Índia Roy, a chinchila Fidel e a coelha Lili, todos aprovados pelo mesmo teste de sensibilidade ao toque aplicados por Hannelore e sua equipe. Eles são manuseados, mordidos e beijados, sem esboçar uma reação.
A gata Frida também funciona bastante para esses fins e, mesmo sendo travessa em casa, é capaz de ficar duas horas imóvel só recebendo carinho e, por vezes, puxões de orelhas e apertões de mãos curiosas. Algumas, de tanto tempo que passaram internadas, nunca sentiram como é tocar os pêlos de qualquer animal. Toda vez que vão “trabalhar”, os pets são higienizados, desverminados e alimentados. Depois da jornada, dormem três horas seguidas, exaustos, mas felizes.
O efeito
A equipe formada por bichos de espécies tão diferentes reúne passagens valiosas sobre a importância de seu trabalho. Cada um deles tem uma história para contar. Um dia a coelha Lili teve o corpo todo “enfeitado” por esparadrapo e gazes. Foi a maneira que um garotinho de 8 anos – internado há quase um ano por causa de queimaduras graves – encontrou para tentar explicar para si que aqueles curativos eram uma tentativa de cura.
Nina virou a cadela de um outro menino que nunca saiu do hospital desde o dia em que nasceu. Quando ele bateu os olhos na cachorra caramelada disse que ela era ainda mais bonita do que as que via nos desenhos e gibis. Até morrer, o momento mais feliz de sua curta vida – ele não cansava de repetir – eram as horas passadas com a sua melhor amiga.
A gata Frida já despertou a atenção de uma menina que não andava, nem falava ou enxergava. Com paralisia cerebral e facial, seus suspiros foram traduzidos como sorrisos. Toda vez que encontrava Frida, ela rolava no chão só para chegar mais perto da gatinha.
A vira-lata Fifi, toda vez que faz sua visita a uma casa de idosos, faz com que a pressão de uma senhora de 80 anos volte aos níveis normais, feito que nem os poderosos medicamentos hipertensivos conseguem.

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